FIM DA SEGUNDA GUERRA

Irineu Carlos de OLIVEIRA PRADO

Dia destes, quando estive no posto Banco do Brasil do Fórum local, tratando de provar minha vida, para continuar recebendo os proventos de aposentadoria, este assunto (fim da segunda grande guerra) surgiu. É que minha data de nascimento foi observada (oito de maio de 1948), e comentado que dona Lourdes deu-me à luz exatamente três anos após o fim da guerra na Europa.

Foi aí que me lembrei, e um pouco falei ao bancário, de tanta coisa que o fim da guerra movia minha memória, hoje algo desgastada.

Meu avô materno (Simão Maintinguer) era austríaco. A guerra era dos Aliados contra Alemanha, aliada à Áustria.

O avô, conquanto estivesse morando no Brasil há bem uns trinta anos, casado com brasileira e com filhos aqui nascidos, era para os que mandavam, inimigo.

Como tal, sempre que desejasse visitar sua irmã, também austríaca (vieram juntos para cá, adolescentes), e que era irmã religiosa Católica em Campinas e depois Jundiaí, pelos trens da Paulista (ele era ferroviário, em São Carlos) submetia-se à humilhação de pedir “salvo conduto” na Delegacia de Polícia, para que pudesse, caso indagado por gente da Segurança, provar que estava autorizado a locomover-se de sua cidade, sem representar perigo ao país.

Tenho que este padecimento em demonstrar que não era inimigo era-lhe menor do que ter seu filho Antonio, voluntário integrante da FEB – Força Expedicionária Brasileira que, em tese, lutava contra seus antigos conterrâneos. A guerra, como se sabe, na Europa era contra a Itália e a Alemanha, Áustria inclusive.

É sabido que a FEB só atuou, mais modestamente do que a propaganda institucional proclama, no Sul da Itália, próxima de tropas americanas, de quem recebeu fardamento, armas e instrução.

Nesta época da guerra, anos 1943/45, meus pais, em São Carlos, estavam namorando “sério”, como se dizia à época, do casal com objetivos matrimoniais.

Mas o pai da noiva impôs uma condição significativa frente às intenções casamenteiras de Irineu e Lourdes. De que o casamento só se desse quando Antonio, o filho expedicionário da FEB, voltasse.

Tio Toninho, pelos comentários em família, era homem do mundo. Com a maioridade, saiu de São Carlos, aventurando-se em São Paulo. Na Capital exerceu diversas atividades, até que admitido na antiga Guarda Civil. Daí alistou-se na FEB.

O velho Irineu tinha dúvidas que seu futuro cunhado, vindo da Itália fosse para sua cidade natal, onde a presença dele era necessária para os que estavam a fim de casar-se.

Com isto, foi esperar o cunhado no Rio de Janeiro. Com ele vindo para São Carlos. O primeiro contingente vindo da Itália, aportou no Rio em 18 de julho de 1945. Os cunhados já eram amigos, amizade que durou por toda a vida de ambos.

O casamento, apadrinhado por Tio Toninho, deu-se logo depois, em 15 de setembro, e durou – hoje raro de acontecer — até que a morte os separasse.

Tio Toninho sempre contava de sua atuação em campos de batalha.  Mas meu pai, à brincadeira, não perdia a oportunidade de interromper, dizendo que nada daquilo tinha ocorrido. Que ele tinha chegado à Europa no contingente que não desembarcou, pois a guerra já terminara.

Conta-se que Getúlio Vargas, deposto logo após o fim da Guerra (em 29 de outubro seguinte), determinou que os pracinhas fossem desmobilizados assim que chegassem ao Rio de Janeiro, antes mesmo do desembarque, e que desfilassem – como a vitória e o fim da guerra impunham – totalmente desarmados, temendo que, tendo combatido ditaduras na Europa, pudessem ser convencidos a fazer isto aqui.

 

Autor é Advogado (OAB/SP 25.686) e

Desembargador Aposentado (TJ/SP).

E-MAIL: oliveiraprado@aasp.org.br

Publicado em 28/05/2026,  Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02

Fonte de imagem: Chatgpt

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