GURGEL VEÍCULOS: SONHO MALOGRADO
GURGEL VEÍCULOS: SONHO MALOGRADO
Irineu Carlos de OLIVEIRA PRADO
Antes de ser sofrido empreendedor, com êxito, doutor Gurgel foi – dentre outras honrosas e importantes atividades — engenheiro na Estrada de Ferro Sorocabana, o que nos aproxima, em termos profissão, com meus ideais ferroviários. Sendo eu filho de ferroviário, fui advogado de ferroviários, e hoje sou presidente da Comissão pela Volta dos Trens de Passageiros a Rio Claro, da subseção local da OAB.
Neste ano em que se comemora o centenário do nascimento de João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (nascido em Franca no dia 26 de março de 1926, e falecido em São Paulo em 30 de janeiro de 2009), é justo que seja ele lembrado pelo seu grande empreendimento que foi a fábrica de autos com seu honrado nome, em Rio Claro. E que só não foi à frente por diversas razões, todas elas que assolam o empresariado brasileiro: insuficiente capital próprio, ou tomado dos bancos a terríveis juros, inflação assustadora e, no caso da Gurgel, quiçá a corrente contrária das montadoras multinacionais.
Tive com a Gurgel episódio que muito me marcou. Deu-se, quando em companhia de meu falecido pai, à época Vereador (década de 1970), estive em visita à fábrica, a convite do Dr. Gurgel, o qual, como não haveria de ser diferente, tratou-nos muito bem.
Quando Dr. Gurgel estava falando da carroceria de seus veículos (que nos carros comuns seria lataria), feita com fibra de vidro, eu – pouco educado, talvez – indaguei se esta parte dos carros seria firme e resistente.
Penso que Dr. Gurgel deve ter-se sentido desafiado e, tomando às mãos um sarrafo de eucalipto, que estava ali por perto, quase um caibro, pediu a meu pai que à época ainda desfrutava de admirável porte físico, desferisse golpe no capô no carro Gurgel, em produção. O pedaço de madeira ficou machucado. Mas não produziu sequer um risco no carro, com o que minha indagação foi, superiormente, respondida.
Percebendo que o anfitrião estava disposto a questionamento, indaguei-lhe se a utilização de motores Volkswagen, como se dava nos primeiros carros produzidos, não deixaria a Gurgel muito na dependência daquela multinacional alemã.
Respondeu-me dr. Gurgel que havia contrato para fornecimento de motores pela Volks, e ele não acreditava que fosse descumprido. Ademais, estava em seus planos produzir motores a combustão e motores elétricos para seus veículos, brevemente. Como, de fato, aconteceu.
Bem se vê que Gurgel estava à frente de seu tempo. Se hoje os motores por eletricidade em carros são o grande prodígio da indústria automobilística mundial, a Gurgel S/A já os fabricava aqui em Rio Claro, até o encerramento de suas atividades, em 1994. É bem possível que os limites das baterias, à época, não permitiram sucesso absoluto, nestes seus carros de tração elétrica.
Preciso registrar que a Gurgel S/A, em tempo de inflação galopante, adotou sistema de pagar seus empregados com salários corrigidos monetariamente, mês a mês.
Com o encerramento das atividades, em triste falência (1994), muitos trabalhadores perderam seus empregos. Bons profissionais, acabaram recolocando-se. Mas a falência deixou Rio Claro de luto, tanto mais que o prédio da antiga fábrica não foi aproveitado por nenhuma das montadoras, que estavam-se instalando à época no país. Não se sabendo tenha havido oferecimento das instalações, para estas.
Permito-me supor que nome de avenida, e exposição em nosso Museu é quase nada de homenagem a este grande cidadão que, mesmo frustrado em seu sonho, fez de Rio Claro conhecida em todo o país, e onde circular um de seus veículos Gurgel, que ainda devem rodar por muito tempo. Pelo menos que sua biografia seja ensinada às crianças do ensino básico, a cargo da Municipalidade.
Autor é Advogado (OAB/SP 25.686) e
Desembargador Aposentado (TJ/SP).
E-MAIL: oliveiraprado@aasp.org.br
Fonte de imagem: Acervo pessoal.
Publicado em 11/06/2026, Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02

Dr. Gurgel, visionário é um lenda como empreendedor, um Elon Musk da época, sem capital suficiente para fazer frente aos desafios da época, inclusive remando contra a corrente do programa pró álcool. Uma pena que o projeto Gurgel foi sufocado por muitos interesses da época.