URNAS ELETRÔNICAS

Irineu Carlos de OLIVEIRA PRADO

Nestas próximas eleições estaremos comemorando o trigésimo aniversário das Urnas Eletrônicas, que debutaram no pleito de 1996 e que, muito aperfeiçoadas, estarão bem servindo ao processo eleitoral brasileiro.

Verdade que aqui e ali, surgiram reclamações. Normalmente dos perdedores, sem que nada de irregular tenha sido apurado. Ocorre, porém, que estas se mostram exitosas, sobretudo evitando fraudes, comuns nos tempos de voto com papel. Estas, computadores que são, permitem rapidez na apuração, ao par de segurança dos resultados.

As Urnas são computadores simples, que não se conectam com a Internet (a salvo, pois, de interferências externas). Emitem boletim com o total dos votos para cada candidato, finda a votação. Boletim distribuído aos partidos, que podem auditar a totalização das urnas, caso se organizem para tanto.

A Rádio Eldorado (Estadão de 17/04, página A 7) produziu alentada série de reportagens (“Se vira nos trinta – três década da Urna Eletrônica”), que se propôs a abordar a história do voto em terras brasileiras, desde quando era o voto em cédulas de papel.

Infelizmente, não pude sintonizar a emissora, e me extasiar com a história que, de certa forma, como filho de candidato, eleitor, mesário e Juiz Eleitoral, assisti bem de perto.

Penso que até 1958 (seria meu pai candidato a vereador?) votava-se colocando em envelope as cédulas do candidato. Cédulas, como diz o nome, eram pequenos pedaços de papel (6 x 12 centímetros, aproximadamente), com o nome dos candidatos, que deveriam fazê-las chegar a seus eleitores, e também prover as cabines eleitorais, com estas.

Dizia-se, se bem me lembro, que assinada a lista de eleitores, estes introduziam o chamado “Sanduiche”, envelopes com as cédulas, dentro da urna, inicialmente uma caixa de madeira, e depois algo parecido com um saco ou malote que à época (anos 60), já permitia a lacração, ao final dos votos, para posterior apuração manual.

E neste manuseio dos votos é que estava o perigo. Por descuido, ou deliberadamente, não era difícil que o voto de um fosse para outro. Mesmo no Estado de São Paulo, com eleitorado mais elevado, juízes confiáveis, e fiscalização rígida.

Posteriormente, após a década de 1960, passou-se a adotar a Cédula Única, oficial, fornecida pela Justiça Eleitoral, em que o eleitor, em local indevassável, escrevia o nome e eventualmente o número do seu candidato.

Também, como não poderia ser diferente, a apuração dos votos dava-se manualmente, com os mesmos riscos de erros ou maus feitos.

Tenho que a eleição de 1992 foi a última com cédula de papel. E nesta eu tive a oportunidade de presidir apuração, como Juiz em zona eleitoral de Pinheiros, na Capital, com grande número de colaboradores, atuando embaixo das arquibancadas do Morumbi, em jogo (uma final qualquer), entre Corinthians e Palmeiras.

A apuração, nas diversas em que atuei, foi para mim espetáculo maravilhoso, oportunidade em que se escrutinava a vontade livre e secreta dos eleitores, Urna a Urna, prestando informação dos resultados para os partidos e para o TER – Tribunal Regional Eleitoral. Tudo isso para que pudesse dar-se o exercício do voto secreto, primado superior da Democracia.

Por falar em volto secreto, conta-se que, em pequena cidade do interior do Nordeste, ao tempo do voto com “sanduiche”, sobre o que já falei, certo Coronel reuniu seus trabalhadores no quintal de sua casa; serviu lanche de pão com mortadela, mais cachaça, enquanto aguardavam sua recomendação. O Coronel disse que deveriam assinar a lista de votantes, e colocar na urna o envelope que cada um recebera, exercendo assim o direito de voto. Claro que no envelope/sanduiche já estavam as cédulas dos candidatos das relações do Coronel.

Ocorre que um trabalhador mais esperto, indagou em quem iriam votar, ao que ouviu de seu patrão: “Oxente, não sabes que o voto é secreto? E que você não precisa saber em quem vai votar?”

 

Autor é Advogado (OAB/SP 25.686) e

Desembargador Aposentado (TJ/SP).

E-MAIL: oliveiraprado@aasp.org.br

Fonte de imagem: Google.

Publicado em 09/07/2026,  Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02

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1 Resultado

  1. Deoclecio J Artur disse:

    Sem dúvida nenhuma, as urnas eletronicas foi a inovação que acompanhou a era tecnológica, e com isto, agilizou o processo de apuração dos resultados.
    Não sou a favor a volta do sistema de votaçao SOMENTE em cedulas de papel, mas encontro que não vejo porque não pode ter acoplado um sistema de impressão, e guarda do voto impresso, sem que o eleitor tenha acesso físico à cedula, e que,k ao dar o comando de finalização do voto, este comprovante caia dentro de uma urna lacrada? Porque qualquer candidato a um cargo público seria contrario a esta alternativa de comprovação dos votos? Deveria ser do interesse de todos, indistintamente, e assim manter assim a possibilidade de conferir os resultados em caso de dúvida.

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