“O CRUZEIRO & PRECONCEITOS” (IRINEU CARLOS DE OLIVEIRA PRADO)
No meu artigo publicado em 11 de agosto último (“General Santana: profecia confirmada”), por razões que não fiquei sabendo, deixou de constar uma nota de rodapé, a respeito do “Cruzeiro”, cujos termos eram os seguintes: “Revista semanal há muitos anos desaparecida, e que certamente foi a mais lida do Brasil. Chegou a publicar acima de 500.000 exemplares por edição, tiragem que a “Veja” só atingiu várias décadas depois. Tinha inclusive uma edição internacional, em espanhol”.
Por deferência dos jornaleiros dos trens de passageiros (sim, havia jornaleiros nos trens de passageiros da Companhias Paulista de Estradas de Ferro), meu velho e querido pai recebia, semanalmente, um exemplar de “O Cruzeiro”, importante publicação nos anos 50 a 70, aproximadamente, que iniciou a mim, e a outros tantos de minha geração, no hábito de leitura, e cuja importância na imprensa nacional foi referendada por livros, teses, etc.
Mas a não publicação da nota acima referida fez-me lembrar de duas histórias de preconceito — praga que quiçá nunca será afastada do ser humano — sendo uma delas do Cruzeiro, e outra contada (certamente para outros, também), pelo saudoso advogado, amigo, e testemunha de meu atual casamento, Doutor Nicolau José Inforzato Laium.
“O Cruzeiro” publicava diversas colunas semanais. A “Última página” ficava a cargo da grande Rachel de Queiroz, e uma outra cujo nome não me vem, era escrita por Mario de Moraes.
Numa de suas crônicas, da qual nunca me esqueço, Mário de Moraes contava que, morando no Rio de Janeiro, em sua época de Grupo Escolar (coisa dos anos 40), o bonde transitava numa rua onde o proprietário pintara um muro de branco. Na manhã seguinte, viu que algum admirador do líder comunista Luiz Carlos Prestes, comandante da legendária Coluna Prestes, num tempo em que o Partidão estava proibido, e que era crime declarar-se seu adepto, ousou escrever em letras garrafais no citado muro o nome de seu herói: Prestes.
É claro que algum adversário não perdeu tempo. Escreveu logo abaixo: “é um traidor”, o que também foi registrado pelo garoto Mário, de dentro do bonde, no dia seguinte.
Mas o liderado comunista ainda tinha argumentos. E tratou de escrever, meio que espremido: “Prestes NÃO é um traidor”. Mario viu, na manhã seguinte, e ficou a pensar qual seria a reação do oponente.
E encontrou na manhã seguinte: “Prestes não é SÓ um traidor”. E Mário, na manhã que se seguiu à última anotação, percebeu que o liderado comunista não tinha mais argumentos: pintou todo o muro de preto, para que nada mais pudesse ser lido a respeito de seu líder.
E a estória do Nicolau é mais próxima, no tempo e no espaço. Dizia respeito a um certo político regional, culto, de formação universitária, muito querido e atuante, de cor negra. Na sua propaganda eleitoral, abaixo de seu nome, algum safado preconceituoso escrevera “negão”. Ao que o político mandou escrever: “homem sério, culto e honesto”. E o desprezível preconceituoso escreveu abaixo :”mas preto”. Laium não me contou a solução dada pelo político com relação à antipropaganda preconceituosa.
(O autor é Desembargador Aposentado do Tribunal de Justiça de S. Paulo, advogado militante, e Membro Efetivo da Comissão do Cooperativismo – OAB – Secção de S. Paulo. E-mail: oliveiraprado@aasp.org.br).
(OUVI DIZER … O Cruzeiro & preconceitos doc)

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