HORÁRIO DE TRENS DA PAULISTA
Irineu Carlos de OLIVEIRA PRADO
Muito se falou, e eu muito ouvi, sobre o rigor no horário dos trens de passageiros, da antiga e saudosa Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
Falava-se – e era verdadeiro – que se podia acertar relógio com o horário daqueles trens. A administração da Estrada considerava falta grave da tripulação, o atraso. Tanto na chegada, como na partida.
Escravo do horário, como Chefe de Trem, tendo dispensado seu relógio Ômega, de bolso, assim que aposentado, meu falecido pai dizia que, em certa feita, o P 5 (trem de passageiros que passava por Rio Claro, às 11,27 horas), chegou a S. Carlos depois de seu horário (12,40 horas). Em Araraquara, parada seguinte, já havia outra tripulação, para substituir a punida com suspensão, pelo atraso.
Exagero à parte, a pontualidade nos trens de passageiros da Paulista era britânica. Ao longo da linha havia relógios de precisão, tanto na plataforma como no interior da Estação (sala do chefe), pelo menos. O que bem pode ser visto em nossa mal tratada Estação Ferroviária.
Interessante que, em todos os dias, exatamente às nove horas, havia chamada geral nos terminais de telégrafo (em todas as estações), para que os relógios pudessem ser aferidos, também com precisão.
Outro serviço da Paulista, de fantástica precisão, era sua rede telegráfica, que interligava todas as estações, ao longo da linha. Seja nas linhas tronco (Jundiaí – Rio Claro, Rio Claro – Colômbia, e Rio Claro – Panorama), e seus diversos ramais, como de Descalvado, Ribeirão Bonito, Santa Eudoxia, etc.
Era muito comum que o Correio se utilizasse da rede de telégrafos da Paulista. Lembro-me, perfeitamente, que o óbito (1960) de meu avô materno, Simão, de São Carlos, foi informado à família antes do Correio. O telegrafista da CP que recebeu a mensagem, sendo meu pai seu amigo e colega de trabalho, cuidou para que outro ferroviário entregasse em minha casa, o telegrama, mensagem que os jovens informáticos, não sabem do que se trata.
Se bem me lembro, a mensagem para o texto do telegrama era reduzida (a tarifa era cobrada pelo número de palavras), e transmitida letra por letra. Certo que o Correio utilizava o Código Morse nas suas linhas. O da Paulista era outro bem próprio dela.
Eu devia ter nove ou dez anos quando minha mãe esteve em S. Carlos, para acompanhar sua irmã, a Tia Olga, em arriscada cirurgia de apendicite. Com isto fiquei alguns dias naquela cidade, sempre ao lado de meu avô, o que os netos bem apreciam.
Numa ocasião, o velho Simão (também ferroviário) convidou-me para acompanha-lo até a Estação ferroviária (prédio ainda hoje em elevado estado de conservação, para vergonha de Rio :Claro). Disse-me que iria acertar seu relógio, de bolso, como o de todos ferroviários. Acerto com o relógio da Estação.
À minha ousada observação para que acertasse o relógio pelo rádio, foi-me dito que daria diferença, pelo tempo entre a transmissão de São Paulo e a recepção em S. Carlos. Sem acreditar na diferença, eu até achei bom, embora duvidando do atraso questionado, porque a Estação de São Carlos era-me maravilhosa. Com plataforma para os trens da linha tronco, de bitola larga, e tração elétrica, e outra para os ramais de Ribeirão Bonito e Santa Eudoxia, em bitola estreita, para tração a vapor.
E, falando de tração a vapor, não posso omitir de contar sobre a visita que eu e meu irmão Irineuzinho fizemos com nosso pai, à ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, em Anhumas, há bem 25 anos. Estávamos sentados na estação, quando o mais velho dos Irineus, olhando atentamente para uma locomotiva a vapor estacionada na esplanada, disse, firme: “esta locomotiva, de bitola métrica, foi da Paulista, na 5ª. Divisão (Ramais de Ribeirão Bonito e Santa Eudóxia) e eu, em diversas ocasiões, pude alimentar sua fornalha, ajudando o colega Foguista.”

Publicado em 16/04/2026, Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02

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