PALAVRAS E EXPRESSÕES ESQUISITAS.
Irineu Carlos de OLIVEIRA PRADO
Presente a definição encontrada em Novo Aurélio, 3ª. edição, 2004, Editora Positivo, página 817, o adjetivo esquisito significa “o não usual, fora do comum, raro.” Claro que a qualificação pode variar de pessoa a pessoa, de localidade, ou da cultura regional.
Na vida, especialmente profissional, tenho-me deparado com algumas palavras e expressões que, ao menos em primeira vista, pareceram-me esquisitas. Selecionei algumas, para deleite de meus caros leitores.
DOUTÍSSIMO JUIZ. Dr. João Chiarini, professor primário, grande folclorista de Piracicaba, que após aposentado colocou-se a advogar, quase sempre pelos pobres e necessitados. Dizia a todos que em português era bom, mas nem tanto em Direito. Grande Figura, já na eternidade, era dessa forma que se dirigia aos Magistrados, à forma escrita ou oral.
DIVISAR. Certo advogado de Piracicaba, que possivelmente não esteja mais por aqui, utilizava este verbo divisar no sentido de ver e pedir: divisava o direito de seu cliente no artigo tal da Lei; divisava que o Juiz lhe deferisse tal ou qual providência. Não me consta que sua advocacia tenha sido prejudicada pelo uso deste verbo.
EM TELA. Jamais vou-me esquecer desta expressão. Vi-a pela primeira vez quando utilizada pelo Colega Antônio Sérgio Socolowiski, em artigo sobre Direito Tributário, no jornalzinho que os alunos do Curso Técnico em Contabilidade do Alem, entre 1963 e 1965 editaram, sendo eu o redator-chefe. Fazia referência ao assunto principal sendo tratado, que estaria em tela, em destaque. Hoje seria bem mais fácil de se entender. Se na época tínhamos tela de cinema e de algum televisor, hoje tantas telas aparecem no dia a dia: do celular, do notebook, do computador, da TV, etc.
EXPENSAS PRECÍPUAS. Famoso, atuante e eficiente advogado, hoje aposentado, o Dr. Ruy Fina redigia petições de causar inveja. Pela riqueza de fundamento jurídico, e da forma de expressão em rico português. Além de primorosa datilografia. Mas esta expressão me impressionou e seduziu. Queria dizer que seu pleito tinha fundamento em tal artigo de Lei, com grande cultura, que o fazia às expensas precípuas, ou seja, sob fundamento principal. Tanto gostei da expressão que cheguei a usá-la, sempre tendo Ruy Fina na lembrança.
RABISCOSO DESPACHO. Certo advogado contratado pela Prefeitura de Piracicaba, com vistas a apurar Imposto Sobre Serviço de Qualquer Natureza, supostamente devido por prestadores de serviço no município, apresentou-me, pessoalmente, petição requerendo a busca e apreensão de livros contábeis de algumas empresas.
Para fugir do “j. conclusos”, como Juiz Substituto em 1980, e conhecedor do assunto, proferi despacho fundamentado e manuscrito, indeferindo a petição. Claro que minha caligrafia nunca foi primorosa, mas era legível. De todo modo, o advogado aduziu Agravo de Instrumento, visando reformar meu rabiscoso despacho, para cuja decisão minha caligrafia não teve qualquer relevância.
Depois disto, nunca despachei à forma manuscrita, mas datilograficamente, certo que a época, computador pessoal ainda era tecnologia do futuro.
ALVAZIR (Oficial de Justiça), e AQUAZIL (Juiz), palavras de origem árabe, eram muito usadas pelo hoje brilhante Desembargador Luiz Bethoveen Giffoni Ferreira, à época em que foi juiz substituto em Piracicaba (1979/1980).
ALIQUANDO BONUS DORMITAT HOMERUS. Muito bom em latim (que há de perdoar eventual equívoco de minha parte), colega ex-seminarista, esteve auxiliando na 4ª. Vara Cível de Piracicaba, em que judiquei (1986). Encaminhei-lhe cópia de acórdãos do Tribunal que confirmaram suas judiciosas sentenças.
E a expressão constava do cartão que o colega agradecia a remessa. Quiz dizer que às vezes o bom Homero adormece. Ou seja, que a confirmação de suas sentenças deram-se mais por descuido dos desembargadores, do que seus méritos, não poucos.
QUOD NATURA NON DEDIT, SALAMANCA NON SUPERBIT. Este expressão veio-me na segunda série do ginásio, quando o professor de Latim proferiu-a para um aluno menos inteligente, querendo dizer que, sem esta qualidade, nenhuma escola consegue ensiná-lo, diante do seu significado: o que a natureza não deu, nem Salamanca suprirá. Claro que hoje, isto seria, sem dúvida, assédio desprezível.
Salamanca, como se sabe, é a Universidade mais antiga da Espanha, e do mundo hispânico. Fundada em 1.218. Já tive oportunidade de usar esta expressão em epígrafe de petição. Sem efeito, todavia, porque o contrário, sem saber Latim, não procurou a tradução, com quem soubesse.
Autor é Advogado (OAB/SP 25.586) e
Desembargador Aposentado (TJ/SP).
E-MAIL: oliveiraprado@aasp.org.br
Publicado em 16/10/2025, Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02


Muito bom