PAREDÃO DA PAULISTA
Irineu Carlos de OLIVEIRA PRADO
Os que cruzam a linha ferroviária, na Avenida Oito, pela passagem de nível, que já foi muito mais segura, devem saber do que falo: aquele muro, que se inicia após a entrada das Oficinas, e duas residências — há pelo menos setenta anos — foi de tijolo à vista, e que a Rumo acaba de pintar de azul e branco.
Tal muro, que a população apelidou de Paredão da Paulista, cerca o imóvel que já foi antigo desvio da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, segue pela Avenida Oito A, deflete à esquerda na Rua Três B, cercando construções da antiga oficina da Paulista, até avenida vinte e quatro A.
A pintura do Paredão, que já foi da saudosa Paulista, depois Fepasa, devendo ser hoje da Rumo, ao que parece, traz-me lembrança de fatos que presenciei há sete décadas mais ou menos.
Eu devia ter sete anos, recém alfabetizado, e o paredão foi inteiramente pintado com mensagens da candidatos de um grupo esquerdista que se intitulava Candidatos da Panela Vazia.
Estavam escritas mensagens com tinta branca, em letras de quarenta ou cinquenta centímetros, tanto em altura como largura. Para serem vistas de longe, e eram. Centenas de metros do paredão foram pintados com as mensagens.
Dos nomes dos candidatos não me lembro. Das mensagens ficaram-me pequena lembrança. É que numa delas escritas por pessoa ou pessoas bem caprichosas, parecendo endereçadas aos ferroviários, havia algumas que recomendavam que se tivesse cuidados com o “polvo americano”.
O nome do molusco era-me desconhecido. Na minha ingenuidade, parecia-me que a referencia era relativa ao “povo” americano, com grafia errada, sobrando um “l”.
Possivelmente meus pais me esclareceram, certo que o nosso trajeto, de primeiros moradores da Vila Indaiá, tinha passagem obrigatória pela Avenida Oito A, sempre pé, caminhando ao lado do paredão pintado pelos cabos eleitorais dos candidatos da “Panela vazia”, que era desenhada várias vezes junto com as mensagens.
Acho bem provável que alguém, morador da Vila Indaiá e da Cidade Nova, lembre-se da primeira pintura, que ultimamente seria chamada de pixação, sobre o muro ainda virgem. No seu estado inicial de tijolo a vista.
Mas isto trouxe-me à lembrança uma crônica de Mario de Moraes, que tinha coluna semanal no “Cruzeiro” que meu pai, chefe de trem, trazia para casa, exemplares já lidos. Esclareço aos mais jovens que nos confortáveis trens de passageiros da antiga Paulista, havia jornaleiro que trazia todas as publicações da época, como se fosse uma Banca.
Dizia o cronista que no Rio de Janeiro, anos 1940, quando se dirigia à escola primária, de bonde elétrico, viu de frente para avenida, um muro recém pintado de branco.
No dia seguinte, algum admirador do Cavaleiro da Esperança, escreveu, neste muro, em letras garrafais, em preto: “Prestes”. No dia que se seguiu, alguém do contra, escreveu em seguida:” é um traidor”.
Na manhã que se seguiu, o admirador do comunista, pintou a palavra “não”, ficando “Prestes não é um traidor.” Porém, na próxima madrugada, o contrário acrescentou “só”, ficando “Prestes não é só um traidor”.
Foi então que o militante vermelho, riscou tudo por cima da inscrição, invalidando as ofensas ao Comandante Prestes, já que os elogios desapareceram.
E, por falar em pixação, ao tempo que isto era permitido em eleições, certo chefe de campanha do candidato NEM em pequena cidade, esteve na capital e viu interessante pixação: “Fulano de Tal fez, Fulano fará.” Madrugada que se seguiu, com outros colaboradores escreveu e mandou escrever em todo poste, muro, porteira, e outros locais: “Nem fez, Nem fará”. Perdeu suas funções, e nem foi derrotado.
Autor é Advogado (OAB/SP 25.686) e
Desembargador Aposentado (TJ/SP).
E-MAIL: oliveiraprado@aasp.org.br
Publicado em 20/08/2026, Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02


Cruzamento em nível na Avenida Oto, Russ 1 e 1 B, do que me lembro, é o tunel para pedestre que foi construído na década de 1960, para dar mais segurança aos transeuntes naquela passagem sobre as linhas dos trens da antiga RODOVIA FERROVIÁRIA PAULISTA. Não tenho lembranças destes eventos de “pixação” referido no texto, pois minha mudança para Rio Claro aconteceu em 1958, e eu não transitava muito naquela área. Boas recordações.