BRIGUENTOS DA EDILIDADE

A 19 e 27 de junho último foi-me dado a oportunidade de assistir, na Câmara Municipal de Rio Claro, homenagem a dois ilustres rioclarenses: Dr. Álvaro Perin e Fernando Brunini, que receberam a comenda de Honra ao Mérito. Dr. Perin, advogado e homem público de excelsas qualidades, ex-prefeito de nossa cidade, e decano dos advogados de Rio Claro. Brunini cronista social consagrado, com intensa atividade na área do turismo local. Ambos merecedores das homenagens, como devem ser prestadas, em vida dos homenageados.

Acontece que, ao lado de Vania Maria, nos primeiros lugares da plateia, pude bem observar a mureta que separa esta do plenário da Edilidade. E com isto lembrar-me de fato ocorrido em 1972.

Naquela distante oportunidade, estava eu, com alguns amigos, sentado mais ou menos na posição acima, próximo da mureta divisória. Dentre estes Abel Rodrigues de Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Claro.

Discutia-se, no Plenário, matéria de interesse dos taxistas locais, para cuja entidade, então Associação Profissional dos Condutores Autônomos, eu prestava serviços advocatícios. Algo como tabela de preços e uso do taxímetro.

O debate estava entre os Vereadores Antônio Humberto Cesar (“Lua”), posteriormente magistrado em Mato Grosso, e meu pai, Irineu de Oliveira Prado, ambos já falecidos.

O Vereados Cesar teria dito algo sobre a honestidade profissional dos taxistas, e o Vereador Irineu respondera que isto se dava também com os advogados. Ao que Cesar partiu em direção de Irineu, atirando contra ele um grande cinzeiro de vidro, sendo recebido com alguns sopapos.

Foi nesse momento que, movido por força inexplicável, corri em direção dos briguentos, saltando como campeão olímpico em corrida sobre barreiras, ultrapassando a mureta “sem relar o casco”, como disse Abel. Fiz isto para separá-los, temeroso das consequências se isto não se desse.

Fui exitoso nesta intenção e, em seguida, acalmados os ânimos, e com a turma do deixa disto dominando o ambiente, tive necessidade de voltar. Sentindo-me sem forças, ou quiçá envergonhado, voltei pelos caminhos de saída normais.

Houve ocorrência policial, sem maiores consequências. Instaurou-se procedimento relativo ao decoro, este chegou ao arquivamento. E, pouco tempo depois, os briguentos já estavam às boas.

Quem muito perdeu foi meu pai. Candidato a presidente do Sindicato dos Ferroviários, adversários leais ao Poder (a Ditadura ainda dominava) conseguiram que o Delegado do Trabalho impugnasse sua candidatura, e o incidente da edilidade teria sido o motivo ensejador de sua desqualificação, embora estivesse ele em gozo de todos os seus direitos políticos.

Participou de eleição por força de Mandado de Segurança que, a final, foi denegado, embora a Chapa que encabeçara fosse largamente vitoriosa, não foi eleito. Seus companheiros de Chapa, temerosos que também fossem afastados do sindicalismo pelo arbítrio que atingiu Irineu, aquietaram-se em seu companheirismo, demitindo-me dos serviços jurídicos do Sindicato. Contratado que havia sido para que os ideais do velho Irineu pudessem ser mantidos na administração sindical. Alguns até vieram a negar sua amizade, e a diretoria passou a ser o que se chamava de Chapa Branca, sem grandes atuações em favor da categoria.

Mas, agora de volta às sessões de homenagens, mais do que merecidas, bem observando a mureta saltada, vejo que ela está algo mais alta. Fosse o caso de saltá-la – o que não desejo por motivo algum — sua altura estaria maior, e o meu preparo físico muito menor.

Porém, noto que ao final da mureta, no sentido contrário à entrada do salão, foi instalada uma porta, por finalidade que ouso supor: facilitar a entrada ao Plenário a atrevidos, sem necessidade de pular a mureta.

O Autor é Advogado militante na Comarca de Rio Claro (OAB/SP 25.686) e Desembargador Aposentado (TJ/SP).

E-MAIL: oliveiraprado@aasp.org.br

Publicado em 11/07/2024,  Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02.

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