EMPASTELAMENTO, ZERO HORA & REPTO

De vez em quando vêm-me à lembrança palavras e ou situações que me ligam à primeira ocasião que me fizeram presentes.

Não sei bem o que a “Cidade”, há uns 55 ou 60 anos, publicou numa época das três greves gerais que os ferroviários haviam deflagrado, quando Rio Claro era o maior centro ferroviário do país, e a estrada de ferro a maior empregadora local.

Deve ter sido algo desabonador aos grevistas. Empastelar significava, ao tempo de tipos móveis e linotipo para composição gráfica, misturar tipos, tintas, papéis, e usar de outras violências até contra pessoas, em periódicos desafetos.

Centenas de ferroviários já estavam mobilizados para tanto. Vinham da sede do Sindicato (Avenida 10, entre ruas 2 e 3) para a redação e gráfica da “Cidade” (Avenida 4 entre ruas 3 e 2), quando uma santa alma (teria sido o Dr. Oswaldo Casella?) logrou convencer os prováveis empasteladores (inclusive meu Pai, diretor do Sindicato) a deixarem os propósitos violentos, porque Sebastião Ribeiro Mancuso, redator do jornal iria publicar, na edição da manhã seguinte, um desmentido ou esclarecimento.

Garoto ainda (teria pouco mais de 10 anos), fiquei sabendo o que seria, sem que empastelamento tivesse ocorrido, felizmente.

Greve geral a partir de Zero Hora do dia tal. Era esta a programação dos ferroviários em seus movimentos paredistas e reivindicatórios.

Na Estrada de Ferro, a saudosa Companhia Paulista, os horários eram rigorosos. Dizia-se, inclusive, que os relógios eram acertados pelas chegadas e partidas dos trens de passageiros. E o horário era nas 24 horas do dia. Nunca se falava nove da noite, mas sim vinte e uma horas. E assim a partir das 12 horas.

O primeiro trem noturno de passageiros, passava em nossa estação, com destino ao interior, às 0h30min. O início da paralização seria, então, a zero horas, minutos antes do noturno.

No raciocínio dos grevistas, o que parece ser lógico, greve de estrada de ferro seria trem não trafegar. Especialmente trem de passageiros. E como a tripulação era trocada em Rio Claro, queriam ter certeza que o primeiro noturno (N 1) por aqui ficaria.

Assim também ficariam os outros dois para o interior e os três para a Capital. Com isto a greve já começaria vitoriosa, e os trabalhadores das Oficinas não iniciariam sua jornada às 6h30min.

Eu deveria ter pouco mais de dez anos e, assim, descobri o que seria zero hora. Sua importância na estratégia grevista só me foi contada muitos anos depois, quando já adulto.

Invenção ou criação do trabalhador ferroviário e militante comunista, não haveria de ser. Quiçá alguma forma de luta do partidão, ou algo que o valha.

Não me lembro onde o fato se deu. Mas a época foi próxima das ocorrências acima relatadas. Porém, tenho certeza que estava em companhia de meu saudoso pai.

O cidadão a que me refiro chegou a suplente de vereador em Rio Claro. Dizia ele, com ênfase, que estava lançando um repto ao presidente do Sindicato, para publicamente, desmoralizá-lo, já que este haveria de estar traindo a classe.

Ignoro como o destinatário do repto ficaria sabendo do desafio. E, se sabendo, não quis aceitá-lo. Pelo que percebi, e me foi explicado posteriormente, ambos haveriam de se encontrar, em local público, para debater a suposta traição.

Nunca mais ouvi falar do tal repto e, conquanto desejasse assisti-lo, jamais soube que tivesse ocorrido aqui por Rio Claro.

                   

O autor é Advogado militante nesta Comarca (OAB/SP 25.686).

E-mail: oliveiraprado@aasp.org.br

Publicado em 17/06/2021,  Jornal Cidade (Rio Claro/SP), Página 02.

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