PAIXÃO & PROMESSA

Há uns cinco anos, fui até a Comarca de Santa Rita do Passa Quatro participar da Sessão Solene de desgravo da Magistrada da Comarca, ofendida que havia sido por uma autoridade municipal.

Após a bela solenidade, uma multidão de Juízes de Direito e Desembargadores, na ativa e aposentados, foram a um jantar, por adesão, no clube local. Sentei-me à mesa com diversos colegas, um da capital e quatro de Comarcas vizinhas.

Claro que comentou-se do desagravo, do brilho dos oradores, da coragem da colega desagravada, e de como as mulheres estão se destacando na Magistratura. Também de assuntos amenos:  futebol, etc. Até que um ou outro, ao querer falar de processos, foi-lhe cassada a palavra.

Pelas tantas, um dos colegas de Comarca vizinha indagou de um terceiro, também colega, e ausente. Queria saber se o Colega, conhecido de todos (menos meu), havia-se reconciliado com a esposa, que o “despedira” sem justa causa.

Outro colega, que me pareceu bem informado, disse que haviam se reconciliado. Mas que isto só se dera após ele cumprir promessa, de ir a pé até Aparecida do Norte, em promessa votiva, na esperança que a Padroeira amolecesse o coração da mulher pela qual era devidamente apaixonado.

Todos da mesa ficamos admirados. Quase 500 quilômetros a pé, até a Basílica da Padroeira do Brasil, é sacrifício e mais alguma coisa. Muito falou-se a respeito. Todos admirados e contentes com a reconciliação, etc.

O interessante, todavia, foi o último comentário, de colega, que bem devia conhecer o casal: “olha, por Fulana, eu não iria a pé nem até a esquina. ” Claro que todos rimos.

Acontece que a paixão sempre leva a exageros. E só o apaixonado pode medir o sacrifício que faz ou fará, para reaproximar-se de sua amada. Que lhe devotava, acredita-se, a mesma paixão.

Não conheço o casal, e nem de lembro de seus nomes. Só desejo que estejam juntos e sempre apaixonados. E se o colega ama a esposa, e a acha a melhor das companheiras, em beleza e outras qualidades, ninguém tem nada com isso.

Mudando de assunto, não posso deixar sem registro meu pesar pelas cento e tantas mil mortes pela Covid-19. Com mensagem de solidariedade para os familiares. Rogando que Deus proteja os profissionais da saúde que estão na linha de frente desta batalha olímpica, e que bem acolha os que já se foram.

Autor é Desembargador Aposentado (TJ/SP)

e advogado militante nesta Comarca (OAB/SP 25.686).

E_mail: oliveiraprado@aasp.org.br

 

Publicado em 13/08/2020, Jornal Cidade, Página 02

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